“Não quer apagar a luz?”
“Eu esqueci disso.”
"Pode deixar. Eu apago"
E ai foi feito palha e brasa, sabe? Assim.
Piscaram e eram entregues e eram explosão. Se encostaram e se fizeram sentidos, línguas, sons e mãos. Ah, as mãos, essas traçaram mapas e mapas em ambos os corpos que no meio dos tecidos, roupas, e caos se resumiam, os dedos dele passaram por cada centímetro que a formava. E ela? Ela tinha vontade de cravar as unhas e o trazer pra cada vez mais perto, se contorciam e provavam da anestesia do êxtase.
O sexo como estado de espirito e o absoluto breu do quarto revelava o quão feito de instintos nós humanos somos.
E no ponto mais intenso daquela sincronia, não podiam ali estarem mais perto, pele e pele, a respiração dele e a nuca dela, mãos entrelaçadas com força, sexos total e deliciosamente ligados e provaram, juntos, assim do que, pra mim, é a razão pela qual viemos a esse mundo, prazer.
“Foi bom isso, né?”
“Nossa.”
Ele respirou cansado. Ela sorriu com o canto da boca.
- Sara Carneiro
terça-feira, 14 de abril de 2015
Ausência
A visão ainda se acostumando com a luz enquanto os dedos dela tateavam o lado direito da cama. A ausência do corpo que costumava frequentar aquele espaço chegou como um tapa, a acordou de vez e fez com que os olhos mareassem. O teto parecia mais longe que de costume e aquele espaço enorme chegava a causar uma sensação claustrofóbica.
E ela queria menos. Menos distância, menos espaço, menos ausência. Ela queria se aninhar, queria ser par de novo, queria o peso, exatamente aquele peso, sobre o seu corpo, por tempo suficiente pra o mundo parecer ter seis metros quadrados, ser pintado de verde e ter umas coisas penduradas na parede. Ousou se levantar, o que foi tarefa árdua, o céu parecia céu de umas três da tarde e ela não sabia desde quando estava dormindo. O corpo inteiro pulsava dor, dor inteira, corpo inteiro sendo dor.
A varanda branca que já tinha sido linda e aconchegante agora era melancolia e confusão. "Por que ele foi?" - um fio de voz rompeu os lábios secos. Silêncio. Elisa não teve resposta. Era claro que não teria. Aquele silêncio a acertou com a solidão e a derrubou ao chão. Já se passara dezoito dias desde o dia em que aquela porta de vidros coloridos se fechou e não se abriu mais, Elisa não sabia mais como fazê-lo.
O som insistente do telefone começou a perturba-la de novo. "Não, ainda não". Se levantou do chão devagar, se apoiando com as mãos e os joelhos e gastou longos três minutos até o banheiro.
Tentou sorrir para o espelho e descobriu que também não sabia mais sorrir. "O que eu ainda sei?" - Silêncio. Elisa continuava linda, mesmo com os olhos inchados e o rosto extremamente magro, era a moça mais bonita do prédio, do quarteirão, quem dirá de toda a cidade. E sabia disso. Mas não fazia diferença.
Dentro do armário ainda tinha meio frasco daquelas pequenas pilulas brancas, cujas instruções eram de se tomar meia por dia em caso de ansiedade. Elisa segurou firme o frasco com a mão. Desabotoou o vestido azul com calma e uma serenidade estranha a invadiu, levou o frasco a boca e sentiu cada bolinha entrando, sendo engolida. Nua, serena e calma, ela abriu o chuveiro. Lembrou como sorrir e sentiu o frio do chão e a água quente que caia nos seus ombros antes dos olhos se fecharem pela última vez.
- Sara Carneiro
Alma da Sua Poesia
Promessa feita, meu bem.
Então fica. Fica que aqui eu prometo ser inspiração, ser a alma da tua poesia.
Florescer versos desde os pés se encontrando enquanto o céu ganha o azul do dia, até a hora em que o êxtase anestesiar suas pernas e seu corpo se entregar ao sono. Fica, meu bem e o carmim desses lábios será seu em beijos e nos sorrisos mais esticados. Pode ficar sem medo que teremos papos pra muitas cervejas na varanda, nossos risos ainda servirão de trilha pra dias a fio.
Fica, aqui tem corpo quente, alma leve e colo macio.
-Sara Carneiro
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